Programa revela falhas do modelo atual e levanta dúvidas sobre capacidade de execução no terreno

A implementação do OIGP 2.0 na Marinha Grande e em Leiria está a expor não apenas os efeitos de fenómenos extremos recentes, mas sobretudo as fragilidades estruturais da gestão florestal em Portugal. Entre prazos apertados, falta de meios e dúvidas dos proprietários, o programa surge como teste a um novo modelo de organização do território.

 

Um território vulnerável há décadas

A dimensão dos danos registados - milhares de hectares afetados entre área pública e privada - não resulta apenas de um evento isolado. Reflete um padrão acumulado de abandono, fragmentação da propriedade e ausência de gestão contínua.

O Pinhal de Leiria, historicamente um ativo estratégico, tornou-se também um exemplo da vulnerabilidade do território face a incêndios, tempestades e pragas.

 

Do modelo reativo ao estrutural

O OIGP 2.0 representa uma tentativa de mudança de paradigma.

Até agora, a política florestal tem sido dominada por respostas reativas:

  • limpeza após incêndios
  • apoios pontuais
  • ausência de continuidade

Com o novo modelo, a aposta passa por:

  • gestão integrada da paisagem
  • coordenação entre proprietários
  • financiamento plurianual
  • planeamento a médio e longo prazo

A questão central é se esta mudança conseguirá sair do papel.

 

O choque com a realidade no terreno

A reunião com proprietários revelou um desalinhamento claro entre o desenho da política pública e a capacidade real de execução.

Entre os principais constrangimentos identificados:

  • Falta de mão de obra especializada
  • Custos elevados de intervenção
  • Dificuldade em identificar parcelas
  • Fragmentação da propriedade
  • Mercado da madeira saturado

Mesmo com equipas mobilizadas a nível nacional, a escala da intervenção levanta dúvidas sobre a viabilidade dos prazos definidos.

 

O fator tempo: o maior risco

O calendário concentra várias exigências num curto espaço:

  • Limpeza obrigatória até 30 de junho
  • Prazo para acesso aos apoios do OIGP até a mesma data
  • Execução global até novembro de 2026

Este cruzamento cria um efeito de pressão sobre proprietários e operadores, podendo comprometer a adesão e a eficácia do programa.

 

O registo e a comunicação da área afetada devem ser feitos através do portal oficial do OIGP.

Operação Integrada da Gestão Florestal - Fundo Ambiental

 

Economia florestal sob tensão

O OIGP 2.0 evidencia também fragilidades económicas da fileira:

  • Preços da madeira abaixo dos custos de exploração
  • Armazéns saturados
  • Continuidade de importações de Espanha
  • Intervenção do Estado com preços superiores ao mercado

Esta realidade levanta uma questão crítica:
- é possível tornar a floresta economicamente sustentável sem apoio público contínuo?

 

Proprietários no centro - mas ainda fora do sistema

Apesar de serem o elemento central do modelo, muitos proprietários continuam fora do sistema formal:

  • Terrenos por registar (BUPi)
  • Desconhecimento dos limites das parcelas
  • Heranças indivisas
  • Falta de informação e acompanhamento

Sem resolver este bloqueio, o modelo de gestão integrada pode ficar comprometido.

 

GUIA PRÁTICO
Saiba exatamente o que fazer, passo a passo:
Aceder ao Manual do Proprietário Florestal - Explicador

 

Duas políticas a coexistir

O momento atual evidencia a coexistência de dois modelos:

  • Um modelo obrigatório e reativo (limpeza anual de terrenos)
  • Um modelo estruturado e voluntário (OIGP 2.0)

A articulação entre ambos será determinante para evitar redundâncias, conflitos e perda de eficácia.

 

 

O que está realmente em jogo

Mais do que a recuperação após a tempestade, o OIGP 2.0 coloca em causa:

  • O futuro da floresta na região
  • A segurança das populações
  • A viabilidade económica do setor
  • A capacidade do Estado em implementar políticas no território

 

O OIGP 2.0 surge como uma das iniciativas mais ambiciosas da política florestal recente, mas a sua execução decorre num contexto de forte pressão operacional e estrutural.

O sucesso dependerá menos do desenho do programa e mais da capacidade de mobilizar proprietários, adaptar a resposta à realidade local e garantir continuidade após a fase inicial.

Sem isso, o risco é repetir um padrão conhecido: intervenção pontual sem transformação estrutural do território.