Por: Nuno Santos
Coordenador do Núcleo Territorial da Iniciativa Liberal da Marinha Grande
A habitação tornou-se uma das questões centrais para o futuro da Marinha Grande. Não apenas porque condiciona a vida de quem procura casa, mas porque influencia a capacidade do concelho em fixar jovens, acolher famílias, atrair trabalhadores, sustentar empresas e renovar a sua comunidade. Uma cidade onde trabalhar é possível, mas viver se torna difícil, perde coesão, dinamismo e futuro.
Para o Núcleo Territorial da Iniciativa Liberal da Marinha Grande, a resposta deve partir de uma ideia simples: habitação acessível constrói-se aumentando a oferta, não congelando preços nem hostilizando proprietários. A regulação artificial dos preços pode parecer uma solução rápida, mas tende a produzir o efeito oposto ao pretendido: menos casas disponíveis, mais insegurança jurídica, menos investimento e maior rigidez no mercado. O caminho deve ser outro. Mais casas no mercado, menos bloqueios, processos mais rápidos e apoio social dirigido a quem dele precisa.
Muitas das causas estruturais da crise da habitação dependem de decisões nacionais: fiscalidade, leis do arrendamento, regime sucessório, enquadramento legal da construção e simplificação legislativa. Essas matérias não estão hoje na esfera de decisão municipal. Ainda assim, o Município dispõe de instrumentos que podem fazer a diferença: planeamento urbano, licenciamento, taxas municipais, património próprio, reabilitação urbana, ação social e capacidade de articulação com privados, sector social e freguesias.
A primeira medida deve ser conhecer melhor a realidade. A Marinha Grande precisa de atualizar a sua Estratégia Local de Habitação e avançar, de forma prudente, para uma Carta Municipal de Habitação assente em dados públicos, úteis e verificáveis. Não se decide bem com perceções soltas. É necessário saber quantos imóveis municipais podem ser mobilizados, quantos edifícios devolutos ou em ruína existem nas zonas urbanas e periféricas, que obstáculos impedem a sua utilização, quanto tempo demora em média um licenciamento, onde se concentra a maior pressão habitacional e que perfis familiares têm maior dificuldade no acesso à habitação.
Este trabalho não exige a criação de estruturas pesadas. Exige método, transparência e prestação de contas. Um relatório municipal anual sobre habitação, simples e acessível, já seria um avanço: património municipal disponível, pedidos de apoio habitacional, prazos médios de licenciamento, imóveis sinalizados, medidas executadas e resultados obtidos. Os dados não resolvem o problema por si, mas impedem que a discussão pública se faça no escuro.
A segunda prioridade é mobilizar património parado. O Município deve começar por dar o exemplo com os seus próprios imóveis. Antes de pedir aos privados que coloquem património no mercado, deve identificar, avaliar e divulgar o estado do património municipal com potencial habitacional. O que pode ser reabilitado? O que pode ser cedido através de direito de superfície? O que pode ser integrado em parcerias? O que não tem utilidade pública e pode ser alienado de forma transparente para gerar nova oferta ou financiar reabilitação?
Quanto aos privados, a política municipal deve assentar em incentivos, não em desconfiança. Muitos proprietários não colocam imóveis no mercado por receio de custos, burocracia, incerteza, obras dispendiosas ou conflitos. O Município pode ajudar a desbloquear estas situações através de informação clara, apoio técnico inicial e redução de custos administrativos. Uma redução ou isenção temporária de taxas municipais para obras de reabilitação que aumentem a oferta habitacional disponível, em especial para arrendamento permanente, seria uma medida concreta, liberal e socialmente útil. Não impõe; incentiva. Não substitui o proprietário; cria condições para que a sua decisão também beneficie a comunidade.
A terceira prioridade é acelerar e tornar previsível o licenciamento. Quando uma família, um pequeno investidor ou uma empresa pretende reabilitar um imóvel para habitação, não deve perder meses em labirintos administrativos. Uma via verde municipal para reabilitação habitacional, sobretudo quando não exista aumento relevante de volumetria nem agravamento de riscos urbanísticos, permitiria transformar casas degradadas em casas habitáveis. Segurança, legalidade e qualidade construtiva não devem ser sacrificadas. Mas burocracia sem valor acrescentado também não deve travar a oferta.
Nesse quadro, faz sentido criar ou reforçar um balcão municipal dedicado à habitação e reabilitação, físico e digital, que concentre informação sobre licenciamento, apoios, taxas, reabilitação urbana, eficiência energética e programas disponíveis. A sua utilidade deve ser medida: tempo de resposta, processos acompanhados, obras concluídas, imóveis devolvidos ao mercado. Se não gerar resultados, deve ser corrigido. A administração local deve servir os cidadãos, não obrigá-los a decifrar procedimentos.
A quarta prioridade é promover parcerias. A Marinha Grande tem uma forte tradição industrial e associativa, e deve usá-la também na habitação. O Município pode trabalhar com privados, associações e instituições sociais para criar soluções de arrendamento acessível, residências temporárias para trabalhadores deslocados, reabilitação de edifícios existentes e utilização criteriosa de terrenos municipais. O objetivo não é o Município substituir o mercado, mas desbloquear soluções onde o mercado, sozinho, não está a responder com rapidez suficiente.
Por fim, deve existir uma resposta habitacional municipal para situações de carência comprovada. Uma sociedade livre não abandona quem se encontra em vulnerabilidade real. Mas o apoio deve ser focado, transparente, temporário sempre que possível, e articulado com acompanhamento social. A solidariedade pública deve proteger quem precisa, sem transformar a habitação num sistema opaco, permanente e desligado da responsabilidade.
A cidade que queremos não se constrói com promessas vagas. Constrói-se com mais oferta, melhor informação, menos entraves, incentivos bem desenhados e apoio dirigido. A Marinha Grande precisa de políticas municipais que permitam aos jovens ficar, às famílias viver com estabilidade e ao concelho crescer sem perder coesão. Habitação acessível não nasce por decreto. Nasce quando a política pública deixa de bloquear, começa a medir resultados e cria condições para que mais casas cheguem às pessoas.
Excelentes contributos. Muitos parabéns….
Qual a estratégia que pensam utilizar para avançar com estas medidas junto da câmara e informar o público em geral?