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E se o maior obstáculo à sua próxima carreira não for a falta de competências, mas a forma como se vê profissionalmente?

Durante muito tempo, responder à pergunta “o que faz?” parecia simples.

Bastava dizer o nome de uma profissão.

Professor. Engenheiro. Empresário. Jornalista. Técnico. Designer. Gestor.

O cargo parecia definir a pessoa profissionalmente.

Mas o mercado de trabalho mudou — e continua a mudar a uma velocidade que torna cada vez mais difícil manter essa resposta tão simples.

Hoje, podemos ter uma profissão e, simultaneamente, desempenhar funções que há poucos anos nem sequer existiam. Podemos mudar de sector sem abandonar a nossa experiência. Podemos combinar competências de áreas diferentes. Podemos trabalhar com inteligência artificial, ferramentas digitais e equipas multidisciplinares sem que o nosso título profissional consiga traduzir tudo aquilo que realmente fazemos.

É neste ponto que surge uma distinção fundamental:

o cargo que ocupamos não é necessariamente a nossa identidade profissional.

O cargo é uma função. A identidade é uma construção.

O cargo diz-nos onde estamos.

A identidade profissional ajuda-nos a compreender quem somos, o que sabemos fazer, aquilo em que acreditamos e o valor que conseguimos criar.

Duas pessoas podem ter exactamente o mesmo cargo e possuir identidades profissionais completamente diferentes.

Um gestor pode definir-se essencialmente pela capacidade de organizar processos. Outro pode destacar-se pela liderança de pessoas. Um terceiro pode ter desenvolvido competências de inovação, transformação digital ou estratégia.

O título é igual.

O percurso, as competências e a proposta de valor são diferentes.

É por isso que construir uma identidade profissional exige olhar para além do cartão de visita, da assinatura do email ou do título no LinkedIn.

O que nos define para além do currículo?

O currículo continua a ser importante. Mas já não conta toda a história.

Um currículo apresenta experiências, qualificações e competências. Não consegue, por si só, explicar a forma como uma pessoa pensa, resolve problemas, trabalha com outros, reage à mudança ou transforma conhecimento em resultados.

A identidade profissional constrói-se através de várias dimensões:

Valores — aquilo que orienta as nossas decisões.

Competências — aquilo que sabemos fazer e aquilo que conseguimos aprender.

Experiência — aquilo que já vivemos, experimentámos e resolvemos.

Propósito — a razão pela qual queremos utilizar aquilo que sabemos para criar determinado valor.

É da combinação destes elementos que emerge uma identidade profissional com significado.

E esta identidade não é necessariamente definitiva.

Ter uma profissão não é o mesmo que construir uma carreira

Podemos aprender uma profissão e permanecer profissionalmente parados.

Também podemos começar numa determinada profissão e construir, ao longo do tempo, um percurso completamente diferente.

A diferença está na capacidade de transformar experiência em aprendizagem.

Uma carreira não é apenas uma sucessão de empregos.

É uma construção contínua de competências, relações, conhecimento, experiências e decisões.

É por isso que uma pessoa pode começar na área administrativa, desenvolver competências de gestão de projectos, aprender ferramentas digitais, especializar-se em análise de dados e acabar a trabalhar em transformação digital.

Não deixou necessariamente para trás tudo aquilo que aprendeu.

Reorganizou o seu conhecimento e construiu uma nova identidade profissional.

Quando a nossa identidade fica desactualizada

Existe, contudo, um problema menos visível nesta transformação.

Podemos actualizar as nossas competências sem actualizar a nossa percepção sobre nós próprios.

É possível aprender uma nova ferramenta e continuar a pensar:

“Eu não sou uma pessoa de tecnologia.”

É possível adquirir experiência de liderança e continuar a apresentar-se apenas como “técnico”.

É possível ter desenvolvido competências de comunicação, gestão, análise ou estratégia e continuar a acreditar que somos definidos exclusivamente pela profissão que aprendemos há dez, quinze ou vinte anos.

A identidade profissional pode tornar-se uma espécie de fotografia antiga.

O mercado muda.

As competências mudam.

As funções mudam.

Mas a imagem que temos de nós próprios permanece igual.

E essa discrepância pode tornar-se uma barreira à evolução.

A transformação digital também é uma transformação profissional

A inteligência artificial e a digitalização estão a acelerar este processo.

Algumas tarefas são automatizadas. Outras são transformadas. Novas funções aparecem e muitas profissões passam a exigir competências que anteriormente não faziam parte da sua definição.

O contabilista utiliza ferramentas de análise e automação.

O profissional de marketing trabalha com dados e inteligência artificial.

O arquitecto utiliza ferramentas generativas.

O consultor combina conhecimento especializado com plataformas digitais.

O professor utiliza novas tecnologias para personalizar experiências de aprendizagem.

A profissão permanece.

Mas a forma de a exercer muda.

É aqui que conceitos como upskilling e reskilling deixam de ser apenas termos associados à formação profissional e passam a fazer parte da gestão da própria carreira.

Fazer upskilling significa aprofundar e actualizar aquilo que já sabemos.

Fazer reskilling significa adquirir competências que podem permitir desempenhar uma nova função ou entrar numa nova área.

Ambos representam uma ideia essencial: a carreira precisa de acompanhar a transformação do contexto em que existe.

A pergunta já não é apenas “o que sei fazer?”

Talvez seja necessário começar a fazer perguntas diferentes.

Que problemas consigo resolver?

Que competências me distinguem?

O que aprendi com as experiências que tive?

Que competências estão a perder valor?

Que competências estão a ganhar importância?

Que ferramentas podem aumentar a minha capacidade?

O que preciso de aprender?

E, sobretudo:

Quem preciso de me tornar profissionalmente para continuar a criar valor?

Esta última pergunta é particularmente importante.

Porque preparar o futuro profissional não significa tentar adivinhar qual será a profissão mais procurada daqui a cinco ou dez anos.

Significa desenvolver a capacidade de aprender, adaptar e reconstruir.

Uma identidade profissional não é uma etiqueta

Talvez uma das maiores mudanças no mundo do trabalho seja precisamente esta: deixámos de poder pensar nas profissões como caixas fechadas.

As carreiras estão a tornar-se mais híbridas.

As competências cruzam-se.

A tecnologia entra em praticamente todas as áreas.

E o profissional passa a ser cada vez mais responsável pela construção do seu próprio percurso.

Isto não significa que todos tenham de se transformar em especialistas em inteligência artificial, empreendedores ou profissionais digitais.

Significa compreender que nenhuma profissão está completamente separada da transformação que acontece à sua volta.

A questão não é abandonar aquilo que somos.

É perceber aquilo que podemos acrescentar ao que já somos.

O futuro começa pela forma como nos vemos

Existe uma dimensão da transformação profissional que nenhuma ferramenta digital consegue resolver por nós.

A nossa própria percepção.

Podemos ter acesso às melhores tecnologias, às melhores formações e às melhores oportunidades. Mas, se continuarmos presos a uma definição antiga de nós próprios, podemos não reconhecer essas oportunidades quando aparecem.

Reinventar uma carreira não significa apagar o passado.

Pelo contrário.

Significa olhar para a experiência acumulada e perguntar:

O que é que tudo isto me permite fazer agora que antes não conseguia fazer?

Essa resposta pode revelar uma profissão diferente.

Uma nova função.

Uma carreira híbrida.

Um projecto.

Um negócio.

Ou simplesmente uma nova forma de exercer aquilo que já fazemos.

Porque, num mercado de trabalho em permanente transformação, talvez a competência mais importante não seja saber exactamente quem somos hoje.

É ter consciência de que a nossa identidade profissional também pode evoluir.

E talvez a próxima etapa da nossa carreira não esteja à espera de uma nova profissão.

Talvez esteja à espera de uma nova versão de nós próprios.

 

Link de Acesso: https://noctua.pt/up-now/

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