Do avanço acelerado da inteligência artificial à tentativa de ganhar tempo para a governar, dois projetos colocam em debate o que pode acontecer entre 2027 e 2040. O EDRO inicia uma nova série para explicar os cenários, os riscos e as implicações para a economia e a sociedade.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma tecnologia em desenvolvimento. Está a tornar-se um fator de transformação económica, empresarial, geopolítica e social.

Mas a questão mais difícil já não é apenas saber o que a IA consegue fazer hoje. É perceber até onde pode chegar nos próximos anos e, sobretudo, com que velocidade.

É neste contexto que surgem dois projetos que merecem atenção: AI 2027 e AI 2040.

Os dois partem de uma preocupação semelhante - a possibilidade da inteligência artificial avançar muito rapidamente - mas apresentam cenários diferentes sobre a velocidade desse processo e sobre a capacidade da sociedade para o controlar.

 

AI 2027: um cenário de aceleração

O projeto AI 2027, desenvolvido pelo AI Futures Project, apresenta um cenário em que a evolução dos sistemas de inteligência artificial acelera durante a segunda metade da década.

A hipótese central é particularmente relevante: à medida que os sistemas de IA se tornam melhores na programação e na investigação, podem começar a contribuir para o desenvolvimento de sistemas ainda mais avançados.

Isto introduz um possível ciclo de aceleração:

IA → investigação → sistemas melhores → investigação mais rápida → IA ainda mais avançada.

O cenário não deve ser confundido com uma previsão garantida. Trata-se de um exercício de previsão e análise destinado a explorar uma possível trajetória e as suas consequências.

Mas coloca uma questão difícil:

e se o ritmo de desenvolvimento da IA for muito superior à capacidade das instituições para se adaptarem?

 

AI 2040: e se fosse possível ganhar tempo?

O projeto AI 2040 parte de uma pergunta diferente.

Em vez de assumir que uma corrida acelerada entre empresas e Estados é inevitável, explora um cenário em que as principais potências conseguem estabelecer mecanismos de coordenação para atrasar uma corrida descontrolada à superinteligência.

O objetivo seria utilizar esse tempo para desenvolver mecanismos de segurança, transparência, verificação e governação.

A diferença é fundamental.

No primeiro cenário, a questão principal é o que acontece se a aceleração for muito rápida.

No segundo, a questão passa a ser o que poderíamos fazer para ganhar tempo antes dessa aceleração acontecer.

 

O debate já não é apenas tecnológico

É aqui que o tema deixa de pertencer exclusivamente aos laboratórios de inteligência artificial.

Se sistemas avançados começarem a automatizar partes significativas da programação, investigação e tomada de decisão, as consequências poderão atingir diretamente:

  • empresas e modelos de negócio;
  • emprego e qualificações;
  • produtividade;
  • investimento;
  • energia e centros de dados;
  • semicondutores;
  • comércio internacional;
  • competitividade entre Estados;
  • concentração de capital e poder;
  • segurança nacional;
  • educação e administração pública.

A inteligência artificial pode, assim, tornar-se uma questão de geoeconomia.

Quem tiver acesso a modelos avançados, capacidade de computação, energia, semicondutores, talento e capital poderá adquirir uma vantagem significativa sobre quem não os tiver.

 

A questão para Portugal

Para Portugal, e particularmente para uma economia fortemente dependente de PME, indústria exportadora e integração nas cadeias de valor europeias, esta discussão não é distante.

A pergunta não é apenas se a inteligência artificial vai substituir determinados empregos.

É também saber:

quais as empresas que vão conseguir utilizá-la primeiro, quais os setores que poderão ganhar produtividade, quais as competências que vão perder valor e onde poderão surgir novas oportunidades.

Na Região Centro, esta questão pode ser particularmente relevante para a indústria, serviços empresariais, engenharia, automação, moldes, vidro, logística e atividades exportadoras.

 

O que é previsão e o que é realidade?

É também necessário separar conceitos.

Um cenário não é uma profecia.

As datas apresentadas nestes exercícios dependem de pressupostos sobre capacidade computacional, evolução dos modelos, investimento, investigação, energia, semicondutores, regulação e comportamento dos Estados e empresas.

Por isso, o objetivo desta série não será dizer aos leitores “é isto que vai acontecer”.

Será analisar o que está a ser previsto, quais são os pressupostos, quais os argumentos a favor e contra e que sinais devemos acompanhar.

Essa distinção é essencial numa área em que a velocidade da inovação pode tornar rapidamente ultrapassadas algumas previsões.

 

Uma década para compreender antes de decidir

AI 2027 e AI 2040 oferecem duas formas diferentes de olhar para o mesmo problema.

Uma pergunta:

E se a IA avançar demasiado depressa?

A outra:

E se utilizarmos o tempo disponível para preparar melhor essa transição?

Entre as duas está uma questão maior:

quem decide o ritmo da transformação tecnológica?

É essa questão que o EDRO vai acompanhar numa nova sequência de Análise & Contexto, começando pelo cenário AI 2027.

 

Na próxima análise & contexto da IA Update

AI 2027: o que aconteceria se a inteligência artificial começasse a acelerar a própria evolução?

Vamos explicar, passo a passo, o cenário, os seus pressupostos e o conceito de recursive self-improvement - a possibilidade de sistemas de IA contribuírem para melhorar os sistemas que lhes sucedem.

O objetivo é simples: compreender antes de prever e preparar antes de reagir.

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