Por Alexandre Calapez

Há um instante que se repete em quase todas as crises empresariais que já estudei ou vi acontecer de perto, não importa o setor, a dimensão da empresa ou o país. É um instante discreto, que surge meses, por vezes anos, antes de a crise se tornar visível a olho nu. Ninguém lhe presta atenção quando acontece, porque não tem cara de perigo. Tem cara de um dia normal de trabalho.

Um fornecedor atrasa a entrega uns dias, e a equipa desenrasca-se como sempre desenrasca. Um colaborador de confiança começa a deixar escapar pormenores, e alguém, sem grande alarido, tapa o buraco. Um cliente paga com um pouco mais de atraso do que é costume, e todos assumem, quase sem pensar, que é coisa passageira. Nada disto parece grave, visto isoladamente. E é precisamente aí que o problema se esconde: na sua própria normalidade.

As crises quase nunca se anunciam. Constroem-se, tijolo a tijolo, em silêncio.

 

A ilusão do colapso súbito

Quando uma empresa entra em crise, ou está prestes a entrar, a história que se conta depois costuma ser dramática. A pandemia atingiu-nos com força. O mercado desabou. Um cliente importante saiu sem aviso. Um ataque informático parou tudo de um dia para o outro. São narrativas convenientes, porque colocam a origem do problema fora de portas. A parte incómoda é que raramente contam a história toda.

Ao longo dos anos, segui de perto vários casos, em setores muito distintos entre si. Em quase nenhum deles o acontecimento externo que fez manchetes foi, de facto, a causa. Foi o gatilho. A verdadeira causa vinha a formar-se havia muito tempo, silenciosamente, dentro de decisões que, cada uma por si, pareciam perfeitamente razoáveis na altura em que foram tomadas.

Uma crise raramente é um acidente. É quase sempre uma fatura que finalmente chegou à data de vencimento.

A pandemia não criou cadeias de abastecimento frágeis, apenas as expôs à luz do dia. O choque energético de 2022, provocado pela guerra, não criou empresas sem qualquer almofada financeira, limitou-se a revelar as que já não a tinham. Um ataque informático não cria uma empresa sem cópias de segurança. Pune a ausência de algo que já devia lá estar havia muito.

 

O padrão que se repete

Em setores tão diferentes como o retalho, a indústria, a hotelaria ou os serviços profissionais, reparei que as empresas mais atingidas por uma crise partilhavam, antes de tudo correr mal, um perfil surpreendentemente parecido.

Havia sempre demasiado peso apoiado num único ponto, um cliente, um fornecedor, um colaborador insubstituível, ou o próprio fundador, sem que ninguém tivesse tratado a sério de construir uma alternativa. Havia também um certo conforto instalado: as margens eram aceitáveis, as vendas eram estáveis, e esse conforto tinha, sem que ninguém desse por isso, substituído o hábito de fazer perguntas incómodas. As decisões chegavam tarde, só quando o problema já era óbvio para toda a gente, porque os primeiros sinais de alerta são fáceis de desvalorizar. E o conhecimento que fazia o negócio funcionar vivia, sobretudo, dentro da cabeça das pessoas, e não em processos escritos, o que significava que perder uma única pessoa podia significar perder, de repente, a capacidade de operar.

Nada disto é dramático, na verdade. E é exatamente por isso que é perigoso. Uma empresa não colapsa por causa de uma única decisão má. Colapsa porque uma longa sucessão de pequenas decisões, cada uma perfeitamente perdoável, foi corroendo, uma a uma, a sua margem de erro, até não sobrar nenhuma.

 

Porque ignoramos os sinais de alerta

Se o padrão é assim tão reconhecível, fica uma pergunta incómoda por responder: porque é que tão poucas empresas agem antes de ser tarde demais?

Não é incompetência. É a natureza humana a fazer exatamente aquilo que sempre faz.

Os sinais de alerta são, por natureza, ambíguos. Um pagamento atrasado pode não significar nada, ou pode ser o primeiro sintoma de dificuldades financeiras num cliente. Um trimestre mais fraco pode ser apenas sazonal, ou o primeiro indício de algo estrutural. Reagir a cada sinal ambíguo seria exaustivo, e a maior parte das vezes desnecessário. Por isso as empresas habituam-se a esperar por confirmação.

O problema é que, quando a confirmação chega, a janela para uma resposta barata já se fechou, quase sempre.

Há também uma razão mais silenciosa, dessas que raramente se discutem. Preparar uma empresa para uma crise que ainda não aconteceu não traz nenhuma recompensa visível. Ninguém felicita um gestor por se ter preparado para um desastre que, no fim, nunca chegou a acontecer, simplesmente porque ninguém consegue ver aquilo que foi evitado. Entretanto, o custo de preparar, tempo, dinheiro, atenção, é imediato e bem visível. Essa assimetria empurra praticamente todas as empresas, grandes ou pequenas, na direção da inação.

A prevenção não recebe aplausos. E é precisamente por isso que costuma ser desvalorizada.

 

O que as empresas preparadas fazem de forma diferente

As empresas que atravessam períodos turbulentos praticamente intactas raramente são as que têm os bolsos mais fundos. Nem sempre. São, sim, as que começaram a tratar a incerteza como uma condição permanente, e não como um incómodo ocasional.

Fazem perguntas difíceis nos dias tranquilos, não a meio de uma emergência. O que acontece se o nosso maior cliente sair amanhã? E se uma pessoa chave estiver ausente durante três meses? E se um custo crítico duplicar de um dia para o outro? Não são exercícios de pessimismo. São o equivalente, em gestão, a saber onde ficam as saídas de emergência antes de a sala se encher de fumo.

Resistem também à tentação de deixar um bom resultado adormecer o bom senso. Um ano forte é, muitas vezes, exatamente o momento em que a disciplina deveria apertar-se, e não afrouxar, porque é precisamente no conforto que os pontos cegos crescem mais depressa.

E dão-se ao trabalho de escrever aquilo que sabem. Uma empresa em que os processos e as relações mais importantes existem apenas na cabeça de alguém está, na prática, a uma demissão de distância da sua própria crise.

 

O verdadeiro fio condutor

Cada crise tem um gatilho diferente. Uma pandemia não é um ataque informático. Um choque cambial não é a perda de um cliente chave. Mas, olhando por baixo da superfície, as empresas que mais sofrem com estes acontecimentos partilham quase sempre a mesma condição de fundo: já tinham esgotado a sua margem de erro muito antes de alguém conseguir prever o acontecimento específico que a expôs.

As empresas que atravessam os tempos difíceis não são as que adivinharam corretamente o que ia correr mal, esse dom não existe. São as que aceitaram, cedo, sem precisar de provas, que algo, mais cedo ou mais tarde, haveria de correr mal.

Não se pode prever qual crise vai chegar. Só se pode decidir, antecipadamente, se haverá margem para responder quando ela chegar.

E é isso, mais do que qualquer estratégia isolada ou qualquer salvaguarda pontual, que separa as empresas que sobrevivem das que, simplesmente, ficam sem tempo.

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