O novo Programa Setorial das Zonas de Aceleração de Energias Renováveis pretende acelerar o licenciamento de projetos solares e eólicos. Mas o verdadeiro desafio será compatibilizar a produção de energia com o ordenamento do território, a biodiversidade e o desenvolvimento económico.

Portugal prepara uma das maiores alterações ao ordenamento do território desde a criação da Rede Natura 2000.

O Programa Setorial das Zonas de Aceleração de Energias Renováveis (PSZAER) pretende identificar previamente áreas consideradas adequadas para receber projetos de energia solar e eólica, reduzindo significativamente os tempos de licenciamento.

À primeira vista, parece apenas uma medida administrativa. Na prática, representa uma nova forma de planear o território nacional, onde a política energética passa a influenciar diretamente decisões sobre ambiente, economia, agricultura, floresta, indústria e desenvolvimento municipal.

 

Porque surge o PSZAER?

A origem desta mudança está na Diretiva Europeia RED III, aprovada em 2023.

A União Europeia concluiu que um dos principais obstáculos à transição energética já não era tecnológico, mas sim administrativo. Em muitos Estados-membros, um parque solar ou eólico demorava vários anos a obter todas as autorizações necessárias.

A resposta foi criar as chamadas Zonas de Aceleração das Energias Renováveis (ZAER): territórios previamente estudados, onde a avaliação estratégica é feita antecipadamente e os futuros projetos beneficiam de procedimentos mais rápidos e previsíveis.

 

O que muda na prática?

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o PSZAER não aprova parques solares nem parques eólicos.

Também não identifica empresas nem projetos concretos.

O programa faz algo diferente:

  • identifica áreas potencialmente adequadas;
  • elimina, logo à partida, muitas zonas incompatíveis;
  • estabelece critérios técnicos e ambientais;
  • permite que futuros licenciamentos sejam mais rápidos.

Cada projeto continuará sujeito às regras legais aplicáveis, mas partirá de um território previamente analisado.

 

Uma nova lógica de ordenamento

Tradicionalmente, o ordenamento do território em Portugal foi pensado sobretudo em função da habitação, agricultura, floresta, indústria, património e ambiente.

Com o PSZAER surge uma nova variável.

A energia passa a ser considerada uma infraestrutura estratégica nacional.

Isso significa que o território deixa de ser apenas organizado em função dos usos tradicionais e passa também a responder às necessidades da transição energética.

É uma mudança estrutural da política pública.

 

Como são escolhidas as áreas?

A seleção das futuras ZAER resulta da combinação de centenas de camadas de informação geográfica.

Entre os critérios considerados encontram-se:

  • recurso solar e eólico;
  • proximidade à rede elétrica;
  • áreas protegidas;
  • biodiversidade;
  • património cultural;
  • Reserva Agrícola Nacional;
  • risco de erosão;
  • proteção costeira;
  • recursos minerais;
  • áreas florestais;
  • habitações;
  • zonas industriais;
  • corredores ecológicos;
  • disponibilidade técnica do terreno.

O objetivo é excluir previamente os territórios onde os impactos ambientais ou territoriais possam ser considerados elevados.

 

O verdadeiro problema pode não estar no território

Curiosamente, um dos aspetos mais relevantes do Relatório Temático da Energia é a conclusão de que o principal bloqueio ao crescimento das renováveis não é a falta de espaço disponível.

Segundo os especialistas que elaboraram o estudo, os maiores entraves continuam a ser:

  • dificuldade de ligação à rede elétrica;
  • capacidade de rede já reservada mas não utilizada;
  • demora administrativa;
  • dificuldade em converter licenças em produção efetiva.

Por isso, o relatório defende que acelerar apenas o licenciamento, sem reforçar a rede elétrica e o armazenamento, poderá não resolver o problema.

 

A importância do armazenamento

Outra novidade pouco discutida é o papel atribuído às baterias e ao armazenamento energético.

O PSZAER assume que produzir mais eletricidade renovável não chega.

É igualmente necessário conseguir armazená-la quando existe excesso de produção e disponibilizá-la quando o consumo aumenta.

Sem esse investimento, existe o risco de aumentar a produção sem conseguir utilizá-la de forma eficiente.


E a biodiversidade?

A componente ecológica foi uma das áreas com maior desenvolvimento técnico.

O relatório identifica três grandes preocupações:

  • proteger áreas classificadas;
  • preservar corredores ecológicos;
  • evitar impactos sobre habitats e espécies ameaçadas.

Os especialistas defendem que a localização dos projetos deve privilegiar áreas já artificializadas ou degradadas sempre que possível, reduzindo a fragmentação dos ecossistemas e os impactos cumulativos.

 

Energia versus desenvolvimento local

É precisamente neste ponto que começa o debate político.

Embora o objetivo nacional seja acelerar a produção de energia renovável, muitos municípios receiam que algumas áreas propostas coincidam com:

  • expansão industrial;
  • futuros parques empresariais;
  • áreas agrícolas;
  • projetos previstos nos Planos Diretores Municipais (PDM).

Na Marinha Grande, por exemplo, a Câmara Municipal aprovou um parecer desfavorável durante a consulta pública, argumentando que algumas das áreas propostas poderiam limitar o desenvolvimento económico previsto no novo PDM.

 

Um novo equilíbrio territorial

O PSZAER não representa apenas uma política energética.

Representa um novo modelo de decisão territorial.

Pela primeira vez, energia, ambiente, economia e ordenamento passam a ser tratados de forma integrada num único instrumento estratégico.

O sucesso desta abordagem dependerá da capacidade de encontrar um equilíbrio entre objetivos que nem sempre convergem: acelerar a descarbonização, proteger a biodiversidade, respeitar os instrumentos municipais de ordenamento e garantir oportunidades de desenvolvimento económico.

É precisamente neste ponto que se concentrará grande parte do debate nos próximos anos.

 

O que o EDRO vai analisar nos próximos artigos

Esta é a primeira análise de um dossiê dedicado ao PSZAER. Nas próximas publicações iremos aprofundar:

  1. PSZAER vs PDM: onde podem surgir conflitos entre o plano nacional e os planos municipais da Marinha Grande e de Leiria.
  2. Que áreas poderão ser afetadas na região? Cruzamento entre ZAER, REN, RAN, COS, Pinhal de Leiria, corredores ecológicos e zonas industriais.
  3. Quem ganha e quem perde? Impactos para autarquias, empresas, proprietários, setor florestal e comunidades locais.

 

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