Investigação publicada na revista Science identifica um segundo deslocamento do arquipélago japonês minutos após o megassismo de Tōhoku, provocado por ondas sísmicas refletidas na fronteira entre o manto e o núcleo terrestre.

Quinze anos após o devastador sismo de Tōhoku, no Japão, uma equipa internacional de investigadores resolveu um dos maiores mistérios deixados pelo terramoto de magnitude 9,0. Um estudo publicado na revista Science concluiu que o arquipélago japonês voltou a deslocar-se cerca de 5 a 6 milímetros aproximadamente 15 minutos depois do abalo principal, devido a ondas sísmicas que viajaram até à fronteira entre o manto e o núcleo da Terra antes de regressarem à superfície.

 

Um segundo movimento que permaneceu oculto durante 15 anos

O sismo de 11 de março de 2011 ficou conhecido por provocar um dos maiores deslocamentos territoriais alguma vez medidos. Partes do nordeste do Japão moveram-se cerca de 2,4 metros para leste, enquanto o tsunami que se seguiu provocou mais de 18 mil mortos e desencadeou o acidente nuclear de Fukushima Daiichi.

No entanto, os dados recolhidos pela rede japonesa de GPS revelavam um segundo movimento que permaneceu sem explicação durante mais de uma década.

Ao reanalisar os registos geodésicos, a equipa liderada pela geofísica Sunyoung Park, da Universidade de Chicago, verificou que, entre 13 e 15 minutos após o sismo principal, praticamente todas as estações GPS do Japão registaram um deslocamento adicional de 5 a 6 milímetros para leste.

Na altura, não foi identificada qualquer réplica sísmica suficientemente forte que justificasse um movimento tão uniforme em todo o arquipélago.

 

A explicação veio das profundezas da Terra

Segundo os investigadores, o megassismo gerou ondas sísmicas profundas, conhecidas como ondas ScS, que percorreram cerca de 2.900 quilómetros através do manto terrestre até à fronteira com o núcleo externo líquido.

Depois de se refletirem nessa interface, regressaram à superfície cerca de 15 minutos mais tarde e atingiram novamente a zona de subducção sob o Japão.

Como as placas tectónicas ainda se encontravam sob enorme tensão devido ao terramoto principal, esse impulso adicional foi suficiente para desencadear um pequeno deslizamento sincronizado, responsável pelo deslocamento adicional registado pelos satélites GPS.

Embora o movimento tenha sido de apenas alguns milímetros, os autores estimam que a energia libertada seja comparável à de um sismo de magnitude aproximada de 7,5, distribuída ao longo de uma vasta área e sem produzir um novo tremor destrutivo.

 

Uma descoberta que poderá mudar a sismologia

Os autores consideram que esta é a primeira demonstração de que ondas sísmicas refletidas na fronteira entre o manto e o núcleo terrestre podem influenciar o comportamento de grandes falhas tectónicas.

A descoberta abre novas perspetivas para compreender a evolução dos megassismos e poderá contribuir para aperfeiçoar os modelos científicos utilizados no estudo da deformação das placas tectónicas e da propagação da energia sísmica.

Os investigadores sublinham, contudo, que será necessário analisar outros grandes sismos para confirmar se este fenómeno ocorre com frequência ou se o caso de Tōhoku representa uma situação excecional.

 

Leia a análise completa

O EDRO preparou uma análise aprofundada sobre esta descoberta científica, explicando:

  • como o sismo de 2011 deslocou o Japão 2,4 metros;
  • porque o país voltou a mover-se alguns milímetros sem que ninguém se apercebesse;
  • como as ondas sísmicas viajaram até ao núcleo da Terra e regressaram à superfície;
  • porque esta descoberta pode alterar o conhecimento científico sobre os grandes sismos;
  • o que ainda falta provar antes de este mecanismo ser considerado um novo paradigma da sismologia.

➡️ Leia a análise completa aqui: A ANÁLISE DO EDRO

 

Fontes