Escassez de matérias-primas, tensões geopolíticas e pressão da Inteligência Artificial colocam indústria tecnológica sob risco estrutural

A crise global dos semicondutores evoluiu de um choque temporário em 2020 para uma vulnerabilidade estrutural em 2026, com impacto direto na indústria automóvel, eletrónica e economia portuguesa.

Crise deixou de ser conjuntural e passou a estrutural

O fornecimento global de semicondores enfrenta uma instabilidade permanente desde a pandemia de COVID-19. O que começou como uma disrupção logística transformou-se num problema sistémico, alimentado por fatores geopolíticos, tecnológicos e de matérias-primas.

Entre 2020 e 2026, a crise evoluiu em três fases:

  • 2020-2021: ruturas de oferta devido a lockdowns e aumento da procura
  • 2022-2024: escassez de matérias-primas críticas, como o gás néon
  • 2025-2026: agravamento político e tecnológico, com disputa global por chips

Matérias-primas e logística são pontos críticos

A cadeia de produção depende de recursos altamente concentrados. Um dos exemplos é o gás néon, essencial para a produção de chips, cujo fornecimento foi fortemente afetado pela guerra na Ucrânia, responsável por cerca de 90% do néon purificado.

Ao mesmo tempo, o modelo “just-in-time” revelou fragilidades:

  • custos logísticos elevados
  • falta de mão de obra
  • instabilidade nos transportes internacionais

Geopolítica já condiciona diretamente a produção

O caso da Nexperia, em 2025, mostrou como decisões políticas podem interromper cadeias industriais em poucos dias.

A intervenção do governo neerlandês e a retaliação da China bloquearam exportações e colocaram fabricantes automóveis sob risco de paragem em semanas.

A dependência do processamento final na China - que pode atingir até 90% em alguns casos - tornou-se um dos principais pontos de vulnerabilidade.

 

 

Inteligência Artificial está a agravar escassez

A procura crescente por chips de alto desempenho para Inteligência Artificial está a pressionar toda a cadeia de valor.

Entre os principais efeitos:

  • subida de preços entre 20% e 30%
  • escassez de memórias (DRAM e flash) até pelo menos 2027
  • redução da produção de dispositivos como smartphones

Empresas com maior capacidade financeira garantem fornecimento prioritário, enquanto fabricantes mais pequenos enfrentam dificuldades crescentes.

Nova crise em 2026: tungsténio ameaça produção global

Em 2026, um novo fator agravou o cenário: a crise do tungsténio.

A China restringiu exportações deste metal essencial para a produção de chips avançados, levando à paralisação de refinarias no Japão e à perda de cerca de 25% da capacidade global de produção de gases críticos.

O impacto inclui:

  • aumento de preços até 500% nas matérias-primas
  • risco de rutura na produção de chips para IA
  • esgotamento de stocks previsto para 2026

 

 

Impacto já se faz sentir em Portugal

Portugal não está imune.

A produção automóvel nacional caiu mais de 23% em 2022, e empresas como a Bosch, em Braga, recorreram ao lay-off devido à falta de componentes.

O país está a responder com investimento público, incluindo uma estratégia nacional de semicondutores com 121 milhões de euros até 2027.

Volatilidade será a nova normalidade

As projeções indicam que a normalização da cadeia global não deverá acontecer antes de 2027.

A dependência de poucos fornecedores, aliada à crescente tensão geopolítica, coloca a tecnologia no centro da segurança económica global.

Naõ perca amanhã a Análise e Contexto da Crise dos Chips