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E se a verdadeira alta performance não fosse conseguir fazer mais, mas conseguir continuar a fazer bem?

Há uma pergunta que se tornou inevitável quando falamos do futuro profissional:

Se as máquinas conseguem fazer cada vez mais, o que nos torna verdadeiramente indispensáveis?

Durante muito tempo, a resposta esteve sobretudo nas competências técnicas.

Saber mais.

Fazer melhor.

Ser mais rápido.

Dominar determinada ferramenta.

Ter mais experiência.

Ser especialista.

Mas o mundo profissional está a mudar. E à medida que a tecnologia assume cada vez mais tarefas de execução, algumas capacidades humanas ganham uma importância que talvez não lhes tenhamos reconhecido suficientemente.

Saber ouvir.

Compreender.

Comunicar.

Criar.

Questionar.

Negociar.

Liderar.

Trabalhar com outras pessoas.

Gerir emoções.

Resolver conflitos.

Tomar decisões perante a incerteza.

E há uma competência que atravessa todas as outras: saber cuidar da própria capacidade para continuar a desempenhar bem.

Porque não basta sermos bons profissionais.

Precisamos de conseguir continuar a sê-lo sem nos destruirmos pelo caminho.

 

O que acontece quando a execução deixa de ser a principal vantagem?

A tecnologia tem vindo a transformar a forma como trabalhamos.

Muitas tarefas que exigiam tempo, experiência ou esforço podem hoje ser realizadas com ferramentas digitais, sistemas automatizados e inteligência artificial.

Isso obriga-nos a repensar uma questão fundamental:

O que sobra para o ser humano?

A resposta não é “nada”.

É precisamente o contrário.

Sobra aquilo que não pode ser reduzido simplesmente à execução de uma tarefa.

Uma máquina pode processar informação.

Mas uma pessoa pode interpretar o contexto.

Uma máquina pode produzir uma resposta.

Mas uma pessoa pode perceber o impacto dessa resposta.

Uma máquina pode identificar padrões.

Mas uma pessoa pode questionar se esses padrões fazem sentido.

Uma máquina pode seguir instruções.

Mas uma pessoa pode decidir se a instrução deve ser seguida.

E, sobretudo, uma máquina não estabelece relações humanas da mesma forma que uma pessoa.

É por isso que, num mundo cada vez mais tecnológico, ser humano pode tornar-se uma vantagem profissional.

 

As competências humanas tornam-se estratégicas

Durante anos, falámos de competências como comunicação, empatia, criatividade ou inteligência emocional como algo complementar às competências técnicas.

Como se fossem importantes, mas não essenciais.

Talvez seja tempo de inverter essa lógica.

Empatia

A empatia é a capacidade de compreender o outro para além daquilo que é explicitamente dito.

É perceber uma resistência.

Reconhecer uma insegurança.

Compreender uma necessidade.

Perceber quando uma equipa está cansada, mesmo antes de alguém o dizer.

No relacionamento com clientes, colegas, colaboradores ou parceiros, esta capacidade pode ser determinante.

Porque pessoas não são dados.

E relações não são processos automáticos.

 

Comunicação

Quanto mais informação temos, maior é a necessidade de saber comunicar.

Não basta falar.

É preciso saber ouvir.

Adaptar a linguagem.

Perceber o interlocutor.

Fazer perguntas.

Explicar ideias complexas.

Dar feedback.

Discordar sem destruir a relação.

Uma boa comunicação não serve apenas para transmitir informação.

Serve para criar entendimento.

 

Criatividade

Ser criativo não significa apenas ter ideias originais.

É conseguir olhar para um problema por outro ângulo.

Encontrar alternativas.

Questionar o que sempre foi feito da mesma maneira.

Relacionar conhecimentos diferentes.

Imaginar possibilidades.

Num mundo em que muitas tarefas podem ser automatizadas, a capacidade de criar novas soluções torna-se ainda mais relevante.

 

Pensamento crítico

Talvez esta seja uma das competências humanas mais importantes num mundo saturado de informação.

Temos acesso a mais conhecimento do que qualquer geração anterior.

Mas isso não significa que saibamos necessariamente melhor.

Precisamos de distinguir informação de conhecimento.

Conhecimento de compreensão.

E compreensão de decisão.

Pensar criticamente significa não aceitar automaticamente aquilo que nos é apresentado.

Significa perguntar:

É verdade?

Faz sentido?

O que está a faltar?

Que consequências pode ter?

Quem é afectado por esta decisão?

Num mundo de respostas rápidas, saber fazer boas perguntas pode ser uma enorme vantagem.

 

Inteligência emocional

Não trabalhamos apenas com competências.

Trabalhamos com emoções.

Medo.

Frustração.

Ambição.

Insegurança.

Conflito.

Pressão.

Entusiasmo.

Mudança.

Saber reconhecer e gerir estas dimensões é essencial para quem trabalha com pessoas — e também para quem precisa de gerir-se a si próprio.

A inteligência emocional não elimina as emoções.

Ensina-nos a não sermos completamente governados por elas.

 

Capacidade de negociação

A vida profissional está cheia de situações em que duas pessoas querem coisas diferentes.

Um cliente quer uma coisa.

A empresa precisa de outra.

Um colaborador tem uma expectativa.

A organização tem outra.

Dois departamentos discordam.

Negociar é encontrar um ponto de equilíbrio sem perder de vista aquilo que realmente importa.

E isso exige escuta, argumentação, empatia, estratégia e capacidade de leitura humana.

 

Liderança

Liderar também não significa ter todas as respostas.

Um bom líder precisa, muitas vezes, de saber fazer perguntas.

Criar confiança.

Dar autonomia.

Reconhecer competências.

Gerir conflitos.

Tomar decisões difíceis.

Assumir responsabilidade.

E ajudar outras pessoas a desenvolver o seu potencial.

A liderança não é apenas uma posição.

É uma capacidade de influência e responsabilidade.

 

Mas há outra questão: quanto conseguimos aguentar?

Existe uma contradição no discurso contemporâneo sobre desempenho.

Queremos profissionais mais criativos, mais atentos, mais empáticos, mais inteligentes, mais colaborativos e mais capazes de tomar boas decisões.

Mas, simultaneamente, continuamos a construir ambientes onde as pessoas vivem permanentemente sob pressão.

Mais tarefas.

Mais reuniões.

Mais mensagens.

Mais objectivos.

Mais disponibilidade.

Mais velocidade.

Mais resultados.

Sempre mais.

E depois perguntamo-nos porque é que tantas pessoas têm dificuldade em manter a concentração, a motivação e a energia.

Não podemos exigir ao ser humano uma capacidade ilimitada de desempenho.

 

Alta performance não é trabalhar até à exaustão

Há uma ideia de alta performance que precisa de ser questionada.

A ideia de que o profissional de excelência é aquele que trabalha mais horas.

Que nunca diz não.

Que responde imediatamente.

Que está sempre disponível.

Que aceita tudo.

Que consegue acumular funções.

Que não precisa de parar.

Que aguenta a pressão.

Mas aguentar não é necessariamente performar.

Sobreviver a um ritmo de trabalho não significa ter alta performance.

Alta performance é conseguir produzir resultados consistentes, com qualidade, ao longo do tempo.

E isso exige uma coisa que nem sempre valorizamos:

sustentabilidade pessoal.

 

Produtividade não é pressão

Existe uma diferença entre estar ocupado e ser produtivo.

Podemos passar um dia inteiro a responder a emails, mensagens, pedidos e pequenas tarefas e terminar o dia com a sensação de que não conseguimos avançar no que realmente importava.

Também podemos trabalhar menos horas e produzir algo que tenha um impacto muito maior.

A produtividade não deveria ser medida apenas pela quantidade de actividade.

Devia ser avaliada pela capacidade de transformar tempo, energia e atenção em resultados com significado.

E isso implica saber escolher.

 

A cultura do “temos de fazer mais”

Vivemos numa cultura profissional que, muitas vezes, associa ambição a excesso.

Se conseguimos fazer mais, fazemos mais.

Se terminamos uma tarefa mais depressa, recebemos outra.

Se demonstramos disponibilidade, somos chamados novamente.

Se conseguimos suportar uma carga elevada, essa capacidade pode transformar-se numa expectativa.

Até que aquilo que começou como competência passa a ser obrigação.

E surge uma pergunta incómoda:

Quando é que o esforço deixa de ser desempenho e passa a ser desgaste?

 

O perfeccionismo também pode destruir desempenho

Existe uma diferença entre excelência e perfeccionismo.

A excelência procura qualidade.

O perfeccionismo pode procurar uma versão impossível de erro zero.

E essa procura tem custos.

Pode impedir-nos de delegar.

Pode fazer-nos perder demasiado tempo em detalhes.

Pode aumentar o medo de falhar.

Pode tornar difícil terminar tarefas.

Pode criar uma sensação permanente de insuficiência.

Num mundo em transformação, ninguém conseguirá saber tudo, controlar tudo ou fazer tudo perfeitamente.

Precisamos de aprender a distinguir:

o que precisa de ser excelente, o que precisa apenas de estar bem feito e aquilo que nem sequer precisa de ser feito.

 

Os limites também são uma competência

Dizer não não é falta de compromisso.

Estabelecer limites não é falta de ambição.

Recusar uma tarefa que não acrescenta valor pode ser uma decisão profissional.

Não aceitar mais uma reunião pode proteger tempo de trabalho profundo.

Desligar pode permitir recuperar.

Delegar pode permitir que outra pessoa cresça.

Pedir ajuda pode evitar um erro.

E reconhecer que estamos cansados pode impedir que o cansaço se transforme num problema maior.

Os limites não diminuem necessariamente a performance. Podem protegê-la.

 

Recuperar não é perder tempo

Precisamos também de mudar a forma como encaramos a recuperação.

Descansar não é preguiça.

Fazer uma pausa não significa falta de produtividade.

Dormir não é tempo perdido.

Ter momentos sem estímulos não significa estar a desperdiçar oportunidades.

A criatividade precisa de espaço.

A concentração precisa de recuperação.

A tomada de decisão deteriora-se quando estamos permanentemente saturados.

E a capacidade de relacionamento também sofre quando estamos emocionalmente esgotados.

Não somos máquinas que podem funcionar indefinidamente à mesma velocidade.

 

O verdadeiro profissional de alta performance sabe reconhecer os seus limites

Isto não significa baixar a ambição.

Significa tornar a ambição sustentável.

Um profissional de alta performance precisa de conhecer as suas capacidades, mas também os seus limites.

Precisa de saber quando acelerar.

Quando parar.

Quando delegar.

Quando pedir ajuda.

Quando mudar de estratégia.

Quando dizer não.

E quando simplesmente precisa de recuperar.

Esta consciência não é fraqueza.

É maturidade profissional.

 

E talvez seja aqui que as competências humanas se encontram com a alta performance

Empatia não é apenas compreender os outros.

É também perceber o próprio estado emocional.

Comunicação não é apenas saber falar.

É saber estabelecer limites e dizer aquilo que precisa de ser dito.

Pensamento crítico não serve apenas para analisar decisões.

Serve para questionar a cultura de trabalho em que estamos inseridos.

Inteligência emocional não é apenas gerir conflitos.

É também reconhecer quando estamos a ultrapassar os nossos próprios limites.

Liderança não é apenas conduzir equipas.

É também saber liderar-nos a nós próprios.

E trabalhar bem com pessoas começa, muitas vezes, por sabermos como estamos nós.

 

O profissional insubstituível não é o que aguenta tudo

Talvez esta seja uma das ideias mais importantes para o futuro.

Durante muito tempo, valorizámos quem “aguenta”.

Quem resolve.

Quem está sempre disponível.

Quem nunca falha.

Quem faz tudo.

Mas um profissional verdadeiramente valioso não é necessariamente aquele que consegue suportar qualquer carga.

É aquele que consegue manter qualidade, discernimento, criatividade e capacidade de relação ao longo do tempo.

Porque é precisamente isso que uma organização precisa.

Não de pessoas permanentemente no limite.

Mas de pessoas capazes de continuar a contribuir.

 

Num mundo de máquinas, continuamos a precisar de humanos

Quanto mais automatizarmos tarefas, mais importante será saber o que fazer com o tempo, a energia e a capacidade que conseguimos libertar.

Podemos usar esse espaço para produzir ainda mais.

Ou podemos utilizá-lo para pensar melhor.

Para aprender.

Para criar.

Para ouvir.

Para liderar.

Para resolver problemas complexos.

Para construir relações.

Para tomar melhores decisões.

E também para recuperar.

Porque talvez o futuro profissional não seja uma corrida para ver quem consegue fazer mais.

Talvez seja uma aprendizagem colectiva sobre como fazer melhor sem deixar de ser humano.

 

Afinal, o que nos torna insubstituíveis?

Não será provavelmente uma única competência.

Será a combinação.

A capacidade de pensar criticamente.

De comunicar.

De compreender.

De criar.

De negociar.

De liderar.

De trabalhar com pessoas.

De gerir emoções.

De aprender.

E de reconhecer que o nosso desempenho não pode ser separado do nosso bem-estar.

Uma máquina pode executar uma tarefa.

Mas o valor humano está muitas vezes naquilo que acontece antes, depois e à volta dessa tarefa.

Está no contexto.

Na decisão.

Na relação.

Na confiança.

Na responsabilidade.

Na capacidade de compreender aquilo que não está nos dados.

E na capacidade de continuar presente quando seria mais fácil funcionar apenas em piloto automático.

 

A verdadeira alta performance pode ser outra coisa

Talvez tenhamos passado demasiado tempo a perguntar:

“Como posso fazer mais?”

E esteja na altura de perguntar:

“Como posso fazer melhor?”

E depois:

“Como posso continuar a fazer bem?”

Essa última pergunta muda tudo.

Porque obriga-nos a olhar para produtividade, pressão, limites, recuperação, emoções e saúde mental como partes da mesma equação.

Alta performance não é dar 100% todos os dias.

É perceber qual é o melhor desempenho que conseguimos sustentar sem comprometer aquilo que somos e aquilo que queremos continuar a ser.

 

A pergunta que fica

Se as máquinas conseguem fazer cada vez mais, talvez a nossa vantagem não esteja em tentar competir com elas na velocidade.

Talvez esteja em aprofundar aquilo que nos distingue:

pensar, sentir, criar, comunicar, questionar, negociar, liderar e relacionar-nos.

E fazê-lo sem transformar a nossa vida profissional numa prova permanente de resistência.

Porque um profissional não é uma máquina.

E alta performance não pode significar autodestruição.

No final, talvez a verdadeira competência do futuro seja esta:

continuar humano.
Continuar capaz.
E continuar inteiro.

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Porque o profissional do futuro não será apenas aquele que sabe fazer mais.

Será aquele que sabe pensar melhor, relacionar-se melhor e continuar a fazer bem.

 

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