Cabos submarinos, GPS, cloud, telecomunicações e sistemas de sincronização sustentam uma parte da economia global que quase nunca aparece nos mapas de risco empresarial.

Quando uma empresa pensa em risco, normalmente olha para fornecedores, energia, crédito, matérias-primas ou transporte.

Mas existe uma camada anterior.

A infraestrutura que permite que tudo isso funcione.

Uma fábrica pode ter matéria-prima em stock, fornecedores alternativos e encomendas garantidas e, ainda assim, enfrentar uma interrupção se perder acesso aos sistemas digitais de que depende para comunicar, pagar, localizar mercadorias ou gerir a produção.

Essa infraestrutura está, em grande parte, fora da empresa e fora do seu campo de visão.

E uma parte significativa encontra-se debaixo do mar.

 

1. A economia mundial está assente numa infraestrutura que não vemos

Os cabos submarinos são provavelmente um dos melhores exemplos.

Mais de 99% do tráfego internacional de dados passa por estas infraestruturas. São utilizadas para comunicações, operações financeiras, cloud computing e serviços empresariais.

Existem mais de 500 sistemas de cabos ativos ou planeados, formando uma rede global com mais de um milhão de quilómetros.

O problema é simples:

quanto mais dependemos deles, maior é o impacto potencial de uma interrupção.

E a própria ITU identifica como vulnerabilidades a concentração das rotas, os riscos físicos e os tempos crescentes de reparação.

 

2. O problema não precisa de ser uma sabotagem

Este é um ponto importante para o artigo.

Não precisamos de imaginar um cenário de guerra.

A maioria das falhas continua relacionada com atividades humanas, como pesca e ancoragem, além de riscos naturais e falhas técnicas. A ITU refere que mais de 80% das falhas têm origem em atividades humanas.

Mas a geopolítica acrescentou uma nova camada.

No Báltico, por exemplo, os países da região estão a reforçar a cooperação perante riscos híbridos que incluem infraestruturas submarinas.

A questão empresarial passa então a ser:

Não é necessário destruir a internet. Basta criar uma interrupção suficientemente longa num ponto suficientemente importante.

 

3. O segundo mapa invisível: GPS

O GPS é normalmente visto como uma ferramenta de navegação.

A dependência é muito maior.

Os sistemas GNSS são utilizados em transporte, logística, aviação, telecomunicações e outras infraestruturas.

E há uma diferença importante entre:

jamming → impedir que o sinal seja recebido;

spoofing → transmitir um sinal falso para fazer o sistema acreditar que está noutra posição ou a receber outra referência temporal.

A EASA atualizou este ano o seu boletim de segurança precisamente devido ao aumento da frequência e sofisticação destes fenómenos.

Para uma empresa, isso significa que uma infraestrutura que parecia simplesmente "disponível" pode, em determinadas circunstâncias, deixar de ser fiável.

 

4. O risco está na interdependência

Devemos olhar para a cadeia.

Cabo submarino

Internet internacional

Cloud / sistemas empresariais

Comunicação / dados / pagamentos

Logística / produção

Cliente

Uma falha num ponto pode produzir efeitos muito mais acima na cadeia.

 

5. A cloud também é infraestrutura física

Há uma ideia errada de que "cloud" significa que os dados estão algures num espaço virtual.

Não estão.

Existem data centres, redes de fibra, sistemas elétricos, cabos submarinos, sistemas de refrigeração e fornecedores de energia.

A digitalização não eliminou a infraestrutura física.

Escondeu-a.

E quanto mais uma empresa transfere operações para plataformas digitais, maior é a importância dessa infraestrutura.

 

6. O novo risco: dependência sem fornecedor

É aqui que podemos introduzir um conceito próprio do EDRO:

Dependência Invisível

Uma dependência invisível é aquela que:

  • não aparece como fornecedor direto;
  • não está necessariamente no contrato;
  • não está no inventário;
  • não é facilmente substituível;
  • mas pode interromper a operação.

Por exemplo:

Empresa → ERP → cloud → telecomunicações → cabo submarino

A empresa pode conhecer perfeitamente o seu fornecedor de software.

Pode não conhecer a infraestrutura crítica que permite que esse software esteja disponível.

 

7. O teste das 72 horas

TESTE EDRO - 72 HORAS

Se a minha empresa perder durante 72 horas:

  • 🌐 Internet?
  • ☁️ acesso à cloud?
  • 💳 pagamentos digitais?
  • 🛰️ GNSS/GPS?
  • 📞 telecomunicações?
  • 🖥️ sistemas ERP?
  • 🚢 informação de localização das mercadorias?

O que continua a funcionar?

E, mais importante:

o que deixa imediatamente de funcionar?

Não é necessário que a resposta seja "tudo".

É necessário saber onde está o primeiro ponto de falha.

 

8. A questão que devemos começar a colocar

Durante anos, a prevenção empresarial concentrou-se em:

Quem me fornece?

Depois passou para:

Por onde chega?

Agora precisamos de acrescentar:

“O que permite que a minha empresa continue ligada ao mundo?”

Porque a próxima vulnerabilidade pode não estar no fornecedor.

Pode não estar no porto.

Pode não estar na fábrica.

Pode estar num cabo a milhares de quilómetros de distância ou num sinal que a empresa nem sabe que utiliza.

 

O que as empresas devem começar a mapear

Infraestrutura Pergunta
🌊 Cabos submarinos Por onde passam os dados críticos da empresa?
☁️ Cloud Onde estão alojados os sistemas essenciais?
🌐 Internet Existe redundância real ou apenas dois contratos com o mesmo operador?
🛰️ GNSS Que operações dependem de GPS/GNSS?
💳 Pagamentos Quanto tempo conseguimos operar sem sistemas eletrónicos?
📡 Telecomunicações Existe uma alternativa funcional?
🖥️ ERP É possível operar manualmente durante uma falha prolongada?
Energia Quanto tempo funcionam os sistemas críticos sem rede?

 

Conclusão

A próxima geração de risco empresarial pode ser menos visível.

Não estará necessariamente numa fábrica destruída, num navio parado ou num fornecedor que fechou.

Pode estar numa infraestrutura que a empresa nunca considerou sua, mas da qual depende todos os dias.

Os cabos submarinos são apenas um exemplo. O GNSS é outro. Cloud, telecomunicações, data centres e sistemas de pagamento completam uma infraestrutura global cada vez mais interdependente.

A ITU está precisamente a reforçar a resiliência dos cabos submarinos porque reconhece que estes constituem uma infraestrutura crítica para a economia digital. Em julho de 2026, o organismo aprovou recomendações internacionais para melhorar monitorização, redundância, proteção e capacidade de reparação.

A prevenção empresarial começa agora a ter de olhar para aquilo que não aparece no mapa.

O risco invisível é aquele para o qual uma empresa não tem sequer uma pergunta preparada.

 

 

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