Os próximos cinco anos poderão redefinir a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Entre alterações climáticas, inteligência artificial, conflitos geopolíticos e mudanças económicas, o futuro já começou - e exige uma nova capacidade de adaptação.
Quando escrevi A Morte Lenta da Normalidade, não pretendia anunciar o fim do mundo. Pretendia apenas chamar a atenção para algo que muitos ainda recusam aceitar: a normalidade em que crescemos deixou de existir.
Não desapareceu de um dia para o outro.
Foi desaparecendo silenciosamente.
Primeiro foram as crises financeiras. Depois as pandemias. As guerras voltaram ao continente europeu. O clima começou a comportar-se de forma imprevisível. As cadeias de abastecimento deixaram de ser garantidas. A inteligência artificial passou de curiosidade tecnológica a ferramenta do quotidiano. A confiança nas instituições diminuiu, enquanto a velocidade da mudança aumentou.
Hoje, a pergunta já não é se o mundo vai mudar.
A pergunta é outra.
Estamos preparados para viver num mundo onde a mudança será permanente?
Os próximos cinco anos dificilmente serão marcados por um único grande acontecimento. O mais provável é assistirmos à sobreposição de vários fenómenos que se reforçam mutuamente.
Clima: viver com a nova realidade
O clima continuará a recordar-nos que os eventos extremos deixaram de ser exceções. Tempestades mais intensas, secas prolongadas, incêndios, cheias e ondas de calor serão cada vez menos vistos como acidentes e cada vez mais como parte da nova realidade. O verdadeiro desafio deixará de ser apenas reduzir emissões; será aprender a construir comunidades, empresas e territórios capazes de resistir e recuperar.
Economia: um mundo menos previsível
Ao mesmo tempo, a economia continuará a reorganizar-se. Durante décadas, habituámo-nos a acreditar que o mercado global resolveria tudo. Hoje percebemos que depender de cadeias de abastecimento espalhadas pelo planeta tem um preço. Os próximos anos serão marcados por uma produção mais regional, por maior preocupação com a autonomia estratégica e por uma competição crescente pelos recursos considerados críticos.
Inteligência Artificial: oportunidade e desafio
Também a tecnologia continuará a acelerar. A Inteligência Artificial não irá substituir toda a gente, mas irá transformar praticamente todas as profissões. As organizações que souberem integrar estas ferramentas ganharão produtividade; as que resistirem à mudança poderão perder competitividade. A grande diferença deixará de estar na tecnologia disponível e passará a estar na capacidade humana de a utilizar com inteligência, ética e propósito.
Geopolítica: uma nova ordem mundial
Na geopolítica, dificilmente regressaremos ao período de estabilidade que marcou parte das últimas décadas. O mundo caminha para uma ordem mais fragmentada, onde as disputas económicas, tecnológicas e energéticas terão um peso tão relevante quanto os conflitos militares. A previsibilidade, que durante muito tempo foi considerada um dado adquirido, tornou-se um recurso escasso.
Mas talvez a transformação mais profunda seja social.
Sociedade: adaptar será a palavra-chave
Vivemos mais anos, mas enfrentamos novos desafios de saúde física e mental. Trabalhamos de forma diferente. Consumimos de forma diferente. Relacionamo-nos de forma diferente. As comunidades locais poderão recuperar importância precisamente porque o mundo global se tornou mais incerto. A confiança, a cooperação e a capacidade de criar redes de proximidade poderão revelar-se ativos tão importantes como qualquer inovação tecnológica.
Perante este cenário, existe uma tentação recorrente: olhar para o futuro com medo.
No entanto, talvez essa seja a leitura errada.
O verdadeiro desafio da próxima década
Todas as grandes mudanças da História abriram espaço para novas formas de viver, produzir e inovar. O que distingue as sociedades que prosperam das que ficam para trás não é a capacidade de prever o futuro, mas a capacidade de se adaptarem antes dos outros.
Talvez este seja o verdadeiro desafio da próxima década.
Não reconstruir o mundo que perdemos.
Construir o mundo que inevitavelmente está a nascer.
Porque a normalidade não morreu para dar lugar ao caos.
Morreu para dar lugar a uma nova realidade.
E essa realidade exigirá menos certezas e muito mais capacidade de adaptação.